terça-feira, 4 de novembro de 2014

Estação Recife



O sol reinava naquela manhã de sábado na capital pernambucana. Primeiro dia do mês de novembro. O relógio marcava 10h15 quando entrei no metrô, razoavelmente cheio. Seguia em direção à estação Recife. O que me chamou atenção foi o festival de venda ambulante dentro da locomotiva. Em 20 minutos contei 10 vendedores e um pedinte, solicitando ajuda para comprar uma passagem para Caruaru.

Uma senhora aparentando quase 60 anos de idade, de pele branca e pálida, usando uma saia branca com flores vermelhas na borda, de fios puídos, com uma blusa que um dia foi azul, vendia salgadinhos e frisava com sua voz fina que a ‘Torcida’ era um real. Com a mão esquerda segurava o saco de plástico transparente com os pacotes de salgados e com a inversa tentava se segurar para não cair por cima dos passageiros, devido o movimento do trem.

Logo atrás da anciã, um homem negro, com cavanhaque estilizado, vestindo um short vermelho e camisa de gola preta, arrastava uma caixa térmica azul vendendo refrigerante e água. R$2 e R$1 cada item, respectivamente.

Um jovem negro, magro e alto vendia pipocas - doces e salgados – por R$1. Sua juventude e a leveza da sua mercadoria permitia que andasse tranquilo pelo do metrô. Sua passagem pelo vagão que estava sentado foi rápida, como a concorrência era forte não podia dar-se o luxo de perder muito tempo. Oferecia a iguaria, dizia o preço e o sabor da pipoca.

E no meio da venda das iguarias comestíveis, surge um rapaz branco, usando short e camisa do Santa Cruz, carregava duas tatuagens em cada braço com o símbolo do seu time do coração, oferecendo termômetro digital, andando de um lado para outro do vagão gritava:

– Termômetro digital. Você testa na hora. Não precisa sacudir para saber a temperatura, apita anunciando que você já pode verificar a temperatura do seu corpo. Nas farmácias o preço deste produto custa em média 15 reais. Sabe por quanto você compra aqui comigo? Pra você passageiro do metrô, eu vendo por apenas 5 reais e você faz o teste agora, no momento da compra.

Água, refrigerantes, salgadinhos variados, pipocas, bombons e jujubas. Tudo se vende no metrô de Recife, assim a viagem fica mais leve e não percebemos o passar do tempo. É tanto anuncio de venda que precisamos ficar atentos aos avisos emitidos pelos condutores do trem. Se vacilar, perde a estação de destino.

Fiz questão de ser o último passageiro a descer do metrô. Vi a locomotiva em sua extensão completa. Eu estava no primeiro vagão. Observei a quantidade de lixo jogado no chão do trem: garrafas de água e refrigerante, canudinhos de plásticos, sacos de salgadinhos e pipocas. Ao mesmo tempo, reparei que não tem uma lixeira dentro do metrô. Questionei ao funcionário da companhia sobre a falta de lixeira, a resposta que obtive é que a venda dentro dos vagões não é permitida por lei.

Leis podem ser mudadas. O mais interessante seria a companhia metroviária realizar uma campanha educativa com os passageiros, colocar lixeira dentro dos vagões e permitir o que já permitido pela necessidade de sobrevivência: a venda ambulante dentro do metrô. Tenho certeza que o metrô do Recife continuará agitado, bonito e alegre, por um único motivo, permanecerá tendo a cara de quem o utiliza todos os dias.

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Ourém 252 anos: como é grande o meu amor por você

Era domingo, 8 de março de 1998. Acordei às 5h, ainda estava escuro. Tomei banho. Saboreei o café feito com carinho pela minha mãe, dei um forte abraço nela e em meu pai. Peguei a bolsa. Caminhei em direção ao terminal rodoviário. Aquele jovem, que no dia anterior completara 18 anos, estava indo embora para Belém continuar seus estudos. Deixei família e amigos e fui descobrir um novo mundo.

Hoje, 16 anos depois, moro em Aracaju (Sergipe), no nordeste brasileiro, longe de Ourém, interior localizado no nordeste paraense, há mais de 1.500km. Contudo, não tem distância que diminua o amor que eu sinto pelo meu lugar, pela minha aldeia, pelo meu povo.

Dias atrás, sentado na areia da praia, curtindo a brisa do mar e ouvindo o barulho das ondas, me peguei correndo na Travessa Tembés, quando ainda não era asfaltada. A piçarra com suas pedras não impedia que fizéssemos da rua nosso campo de futebol, de taco e de queimada. “Não valeu o gol. Foi falta”, “Não derrubou a lata. Tem que derrubar”, “Você morreu. Passe para o outro lado”, escutei os gritos que dávamos durante nossas brincadeiras nas tardes ensolaradas ou chuvosas do Pará.

Olhando para a imensidão do Oceano Atlântico me peguei nadando nas águas correntes do estreito Rio Guamá. Senti-me caindo da boia no meio do rio, pulando do cais ou da ponte, correndo pelas pedras da cachoeira, andando de canoa, comendo charque assado com farinha, tomando cachaça 51 na escadinha e tirando o gosto com manga verde que derrubávamos da velha mangueira que reinava imponente na beira do arrimo.

Um casal de adolescente caminhava na areia da praia, vestiam o uniforme escolar. A moça de pele bronzeada soltou seu enorme cabelo preto para balançar no ritmo do vento que arrastava as ondas. Olhando pra eles me encontrei na Escolinha do Atlântico, atual Rubens Guimarães Júnior. Foi lá que eu estudei da pré-escola à 3ª série do ensino fundamental. Foi lá que eu descobri o mundo da escrita, do cálculo e da leitura. Meus primeiros passos no mundo do saber acadêmico foram na escola que abrigava o Complexo Esportivo da cidade, com o estádio de futebol que foi palco de tantas alegrias proporcionadas nos clássicos entre Luiz de Moura e Liderança. Em seguida lembrei da Escola Padre Antônio Vieira, onde estudei a 4ª série do ensino fundamental, com seus corredores, muitas salas de aulas, uma campainha de barulho forte e uma merenda escolar impecável preparada pela minha Mãe e suas amigas-comadres Dona Direne, Dona Júlia, Dona Guiomar, Dona Joaquina e Dona Maria do Aurélio. Aos poucos, cheguei à Escola Padre Ângelo Moretti, entrando pelo portão que me dava acesso à 5ª série do ensino fundamental até o 3º ano do ensino médio. Era um colégio enorme aos meus olhos e atravessar aquele portão era símbolo de crescimento, estava deixando de ser criança. Deparei-me com um lindo bosque, cheio de animais, mesas e bancos de madeira. Nessa escola avancei pelo mundo do saber, descobri a complexidade dos números e letras aprendidas nas séries inicias, viajei pelo mundo da ciência, descobri a história do homem enquanto ser social e sua localização geográfica. Tudo isso conduzido por professores fabulosos.

Levantei da areia e resolvi caminhar pelo calçadão da orla de Aracaju. Cheguei ao ‘Mundo da Criança’, uma área cheia de brinquedos, espaço onde a meninada se diverte. Lembrei do nosso modesto parque, localizado entre a Igreja Matriz e a Praça Magalhães Barata. Era nosso palco de diversão. Todos os sábados, após a Missa das Crianças, era pra lá que corríamos. Depois de pular, girar, gritar, correr, íamos comprar guloseimas no Tio Dedê. O parque deu lugar a um prédio da Ação Social, hoje quem faz estripulias por lá são os idosos, e o Tio Dedê está vendendo bombons e caramelos para os anjos.

Andei em direção à minha casa. Continuei com o pensamento em Ourém, relembrando os momentos que marcaram a minha vida, ajudaram a formatar minha personalidade, permitiram ser quem eu sou. Posso percorrer por vários lugares, mas percorro consciente de que tenho minhas raízes fixadas em um lugar pequeno e aconchegante lá no interior do Pará. É de lá que eu venho. É de lá que eu sou.

Nesses 252 anos de história tenho apenas uma coisa a dizer: Ourém, como é grande o meu amor por você!


Aracaju (SE), 29 de maio de 2014. 

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

O bêbado na praia de Deus

O sábado estava ensolarado, já anunciando a chegada do verão. O forte calor pedia uma água de coco bem gelada. Assim fiz, caminhei até a orla, sentei em um quiosque, pedi um coco e fiquei observando o movimento na praia. Passava das 14h, poucas pessoas transitavam pelo calçadão. Um senhor de pele clara, estatura baixa, usando uma bermuda jeans desgastada e uma blusa que um dia tinha sido branca chegou oferecendo picolé caseiro. Afirmava com todas as letras que era uma delícia, anunciou uma lista de sabores e concluiu enfatizando o preço, “apenas R$1”.

Continuei tomando minha água de coco, olhando para a praia. O dono do quiosque tomou coragem e pediu um picolé de graviola. “Quero ver se é bom mesmo”. O sorveteiro revidou, “se não for bom, você não paga”. O vendedor de coco chupou o picolé como criança, se lambuzou todo, segurava o palito com a mão direita e limpava o queixo lambuzado com a outra mão. O sorveteiro louco para receber o seu dinheiro perguntava insistentemente, “e aí, gostou?”. O tio do quiosque fingiu que não ouviu e seguiu enfiando o picolé na boca desdentada.

Assim que terminou de chupar o picolé e jogar o palito no chão do quiosque, o vendedor de coco olhou para o sorveteiro e disse, “você deve ganhar muito dinheiro, hein”. Entendi que isso era a confirmação de que o picolé era saboroso. O sorveteiro para revelar sua modéstia respondeu, “que nada, quem deve ganhar bem é você com esse quiosque”. A partir daí, o tio do quiosque iniciou uma longa ladainha reclamando do dinheiro que paga pelo aluguel do estabelecimento comercial, R$1.200, da taxa de água e energia. Com cara de enfezado disse que fica por mês com algo em torno de R$1.500. “Isso não dá pra nada”, reclamou. O sorveteiro concordou, “é verdade, é pouco mesmo”.

O tio do quiosque colocou a mão dentro de uma lata de alumínio, pegou uma moeda de R$1 e entregou ao sorveteiro. Depois de agradecer, verificou se a tampa do carrinho estava travada e seguiu seu caminho. O tio do quiosque tentou puxar conversa comigo, reclamando novamente do valor do aluguel que paga ao dono do quiosque, acrescentando a informação de que o proprietário é dono de mais três quiosques na orla. Eu disse que uns têm muito e outros não têm nada, mas quando ia aprofundar esse debate de classes com o tio, fomos interrompidos por duas moças e duas crianças. Estavam na praia e queriam uma chuveirada para tirar a areia do corpo. O tio tem um chuveiro, ligado à uma bomba, que jorra uma água fria e potente. Essa delicia de frescor custa R$1, o minuto.

O tio foi atendê-los, recebeu o dinheiro e organizou a ordem dos banhos. Voltou para dentro do quiosque, ordenou que a primeira pessoa se dirigisse ao chuveiro, acionou uma tomada e água caiu fria e forte. As pessoas se assustam com o volume da água e com a frieza, fazendo com que dê um salto e um gemido, seguido de uma risada. Foi assim como todas as pessoas que passaram por debaixo daquele chuveiro durante o tempo que fiquei sentado em uma cadeira branca de plástico, com as pernas esticadas sobre outra cadeira do mesmo modelo, da mesma cor.

Quando a última moça estava concluindo seu banho, apareceu um homem vestindo apenas com um short preto, com uma pequena bolsa pendurada em suas costas e estava de porre, baforando cachaça, tropeçando em seus próprios passos. “Eu quero tomar banho”, gritou o bêbado. O tio do quiosque logo avisou, “paga R$1”. O porre retrucou, “eu pago, pago qualquer preço”. O tio anunciou, “deixe a moça terminar a vez dela”. O bêbado veio em minha direção, jogou sua bolsa próximo a cadeira que eu estava sentado e voltou em direção ao chuveiro. A moça concluiu o banho e o bêbado se deliciou embaixo do chuveiro como se estivesse encontrado uma fonte mágica, quando ele estava no auge da degustação, o tio desligou a bomba. O bêbado veio, pegou sua bolsa e colocou nas costas. Ia embora como se não tivesse que pagar o R$1, que antes afirmara que pagaria. Aliás, afirmara que pagaria qualquer preço.

O tio gritou de dentro do quiosque, “tem que pagar o R$1”. O embriagado respondeu, “não pago”. O tio saiu do quiosque, começou a bravejar dizendo que teria que pagar. Ficou a discussão paga X não pago. O tio do quiosque segurou o bêbado pelo braço, que sob o efeito do álcool perguntava, “vai me bater, vai me bater”. O tio reduziu sua fúria e mandou o bêbado ir embora do quiosque. Ao caminhar três passos, o bêbado gritou, “a praia é Deus”. Já de dentro do quiosque, o tio gritou mais alto, “mas a bomba é minha”.

Eu pedi mais um coco. Depois solicitei que o tio preparasse uma garrafa com um litro d’água. Paguei minha conta que custou R$12, agradeci e desejei boa tarde. O tio respondeu ao agradecimento e na réplica eu disse, “fique em paz na praia de Deus”. Coloquei meu óculos escuro e fui pra casa.

terça-feira, 3 de setembro de 2013

A outra metade

Assim que encostei meus lábios nos seus, frases desconexas surgiram em minha mente. Achei necessário registrá-las, buscar uma sintonia, um nexo. O suporte era o menos importante, podia ser escrita à mão em um pedaço de papel, digitar no iPad ou datilografar na minha velha máquina Remington Ipanema.

Com o seu beijo, a brisa que me igualava ao mar desapareceu dando lugar a uma forte tempestade. A calmaria foi substituída por ondas gigantes, arrastando tudo que me tranquilizava. Agora me pego datilografando essas linhas, caçando palavras, buscando explicações.

A única resposta que encontrei me levou apenas à metade do caminho. Resta-me encontrar a outra metade.

Aracaju/SE
20.08.2013

Vento dançante

É inverno, só resta um pouco de sol no céu, mais uma tarde chega ao fim. Sento na cadeira de balanço, em frente a minha casa, esperando a noite chegar. Monto guarda na minha porta para sentir a brisa que bate anunciando a vinda de um vento mais forte, que vem dançando pela rua.

Pernilongo

Ao tentar escrever essas poucas palavras, sou azucrinado por um pernilongo que insiste zunir em meus ouvidos. Pergunto:

- Por que Noé colocou um casal de pernilongo na Arca?

sábado, 3 de agosto de 2013

Nas ruas do Pelourinho

Cresci correndo nas ruas de pedras do Pelourinho. Subia e descia ladeira sorrindo, catando, às vezes, reclamando. Quando ia para a escola, com a energia de menino, as ladeiras não eram obstáculos. Eram deslizes. Bastava mainha mandar ir a taberna do Seu Zé, logo reclamava:

- Subir a ladeira com a sacola é ruim.

Não tinha chiado certo, mãe mirava seus olhos arregalados, eu virava as costas e descia ladeira abaixo. A subida era um verdadeiro sacrifício. Quanto mais andava parecia que a moléstia da ladeira crescia ainda mais. Às vezes, ficava sentado na calçada de um casarão azul, nº 54. Ficava alguns minutos ali, buscando coragem para subir a ladeira, pois força eu tinha, contudo, a preguiça me dominava.

Morávamos na Rua Três de Maio com a Rua da Oração. A Praça da Sé era o palco principal de nossas estripulias. Binho era meu amigo, parceiro e irmão. Conhecíamos o Pelourinho na palma da nossa mão. Cada rua, cada ladeira, cada beco. Andávamos por todas partes, sabíamos os caminhos mais curtos para ir a qualquer lugar. A geografia era nossa ciência, sem mesmo entendê-la muito bem na escola.

Painho era carpinteiro. Francisco era seu nome. Chico da Carpintaria seu apelido. Um homem tranquilo, de poucas palavras. Saia de casa logo cedo e voltava quando sol estava se pondo. Trabalhava na carpintaria da Igreja da Ordem Terceira de São Francisco. Todos os móveis da igreja era meu pai que fazia. Lembro que falava com admiração para Binho:

- Esse banco que estamos sentado foi meu pai que fez.

Um simples banco preto de madeira era para mim uma grande obra. O fato de ter sido feito pelo meu pai era valoroso demais para mim. Achava aquilo magnifico. O meu pai construindo obras para a casa de Deus.

Mainha era uma senhora bastante católica. Nas horas vagas contribuía com afazeres na igreja. Varria o chão, limpava as imagens dos santos, deixava brilhando os bancos de madeira feitos pelo seu esposo. Casou com meu pai nesta igreja e sempre dizia que a união tinha recebido a benção do Padre Luís. Famoso sacerdote que tinha ido embora para Ilhéus e deixara saudade a toda comunidade.

Eu, desde cedo não gostava da igreja. Assim como todos os meninos da minha época erámos forçados a comparecer à missa. O melhor momento era quando o padre dizia:

- Vão em paz, que o senhor nos acompanhe sempre!

Não respondíamos nem amém. Era uma só carreira da igreja à Praça da Sé. No fim de tarde dos sábados, a praça ficava lotado de meninos e meninas serelepes como eu e Binho. Rapazes e moças, já na adolescência, ficavam namorando nos bancos de ferro. A gente queria saber era de correr, inventar brincadeiras e tomar sorvete de tapioca.

Assim vivemos toda nossa infância. Escola, igreja, praças, ruas, ladeiras. Crescemos. A Praça da Sé deixou de ser nosso ponto de encontro. Conhecemos a bebida, o cigarro, as mulheres. Passei no vestibular de arquitetura. Binho passou em um concurso público estadual e não quis entrar na universidade. Seguimos descobrindo o Pelourinho da mesma forma quando crianças. Agora, os bares, os botecos e os bregas delineavam a nossa geografia.

A Ladeira da Montanha e a Ladeira da Conceição da Praia eram nossas ruas preferidas. Descobrimos os casarões coloridos e as mulheres que lá se abrigavam. Dolores fazia de tudo comigo na cama. Regina ensinou os prazeres à Binho. Foram quase três anos subindo e descendo as duas ladeiras. Eu gastava todo o dinheiro que conseguia com estágio que arranjei em uma empresa de engenharia. Adorava presentear Dolores. Pulseiras, cordões, brincos. Assim como o candomblé presenteia seus orixás, presenteava Dolores, a minha rainha.

Binho ganhava mais dinheiro do que eu, mas não tinha todo esse romantismo com Regina. Gastava todo o seu dinheiro no bar do bordel e no jogo de cartas. Madame Rosana, dona do casarão “Flor da Bahia”, o mimava todo. Sempre interessada no dinheiro que ele ia gastar em seu bordel. Chegou a apostar no jogo até um relógio de ouro que ganhara de um tio de presente.

Quando eu ia completar 22 anos meus pais morreram em um acidente de carro. Estavam indo para um evento da igreja em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo. Lembro até hoje o rosto pálido e trêmulo do padre ao me informar o ocorrido. Fiquei sem chão. Não sabia o que fazer. Fiquei uns dois meses recolhido em casa. O silêncio da Rua Três de Maio era meu conforto. Não queria sair, não queria ver ninguém. Não fui para a universidade, perdi o estágio. Tinha medo de ir à rua e ouvir o sino da igreja. Para mim, mainha tinha ido organizar o templo de Deus e painho estava lá cuidando dos móveis, consertando bancos e mesas, construindo novos armários. Porém, eles não voltavam. Até que um dia percebi que eles tinham partido de vez.

Sai de casa rumo à Ladeira da Conceição da Praia. Fui em busca do colo de Dolores, dos seus braços, da sua cama, do seu corpo. Madame Rosana informou que a minha rainha tinha mudado de bordel. Perguntou pelo meu amigo de infância e disse que ele tinha deixado uma dívida no bar. Eu não sabia de Binho. Durante esses dois meses não abri a porta de casa para ninguém, nem para ele, nem para o padre.

Segui em direção à Ladeira da Montanha. Na frente de um casarão reconheci Matilde, prostituta amiga de Dolores.  Informou que minha rainha estava na área, mas não sabia informar o certo em qual casarão. Sentei na calçada, como no tempo de menino quando subia a ladeira com a sacola cheia de mercadorias do mercadinho do Seu Zé. Agora não pedia coragem para seguir adiante. Pedia força e sorte. Precisava encontrar Dolores. Entrei em um casarão azul, com duas grande janelas abertas, decoradas com cortinas vermelhas, com vista à Baia de Todos os Santos. No som rolava aquele brega rasgado, que falava do fim de um relacionamento, o homem apaixonado que mesmo corneado queria a amada de volta. Alguns casais dançavam no salão. As mesas quase todas ocupadas. No bar, uma loira alta servia as bebidas. Caminhando em direção ao balcão, vejo Dolores sentada em uma mesa acompanhada de outra mulher. Ela me olhou. Vi um brilho nos seus olhos. Sei que ela não viu nenhum brilho nos meus. Enxergou em sua frente um homem barbudo, cabelo despenteado, dominado pela solidão.

Dolores veio ao me encontro. Não questionou meu sumiço, nem minha aparência. Me deu um forte abraço como se soubesse que precisa de seu amparo. Beijei seus lábios carnudos lambuzando meu rosto com o seu batom vermelho. Dormimos juntos no bordel naquele casarão pela última vez. Até hoje, Dolores mora comigo na Rua Três de Maio.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Desassossego


Quando Fernando Pessoa estava escrevendo as pequenas prosas para o Livro do Desassossego não estava buscando falar sobre si, sobre o que ele era. Estava tentando decifrar o que ele não foi.

Falar o que o somos e o que vivemos é muito mais fácil. Basta apenas exercitar a mente lembrando o ocorrido, voltando ao passado. Falar sobre o que não fomos e queríamos ser é mais difícil. Exige criatividade. É preciso inventar o não ocorrido. Construir seqüências de fatos não executados. Criar cenas não realizadas, apenas desejadas.

Escrever aquilo que queríamos ser, pode passar a impressão de que é mais prazeroso. Afinal, vamos estar registrando em palavras os devaneios que circulam em nossa mente. Estaremos colocando no papel um projeto de vida que pensamos e desejamos. Depois de escrito, ao ler o desejado sentiremos uma dor, pois a vida que temos não é aquela que inventamos.

A realidade, por mais dura que seja, precisa ser encarada de frente. Não necessariamente precisamos descrevê-la de uma forma fria, seca, áspera.  A realidade também tem seu lado literário. O cotidiano pode ser expresso por um ponto de vista mais simples e ao mesmo tempo rico. A realidade, diferente do desejo e do sonho que permite a gente voar pelas nuvens, exige, unicamente, que estejamos com os pés no chão. Por uma questão de segurança, claro. Afinal, o chão é mais firme que o céu.

Sertão do Rio Grande do Norte
16.02.2013

Três despedidas


Há tempos não presenciava cenas de despedidas. A separação é dolorida, ao mesmo tempo que pode ser tempo de renovação. O pai e mãe de um jovem, que deve ter uns 17 anos de idade, choravam abraçando seu menino. Este também revelava um pouco de tristeza, porém, era uma tristeza com pintadas de alegria. Alegria pela viagem, por um momento novo que iniciava, por um mundo e estradas que descobriria.

Um jovem beijava sua namorada como se fosse o último encontro. As lágrimas desciam em seus rostos. O beijo prolongava-se na mesma proporção em que as gotas lacrimais caiam encharcando e deixando suculento o encontro labial dos apaixonados. Ela partiu. Ele ficou. Eles partiram. O próximo encontro, incerto. O mundo gira, as horas passam, a vida muda. Mas pelo carinho trocado posso afirmar que buscarão se reencontrar logo.

A mãe junta os dois filhos e o esposo, forma um pequeno circulo, ora. Consigo ouvir alguns sussurros onde a mãe pede proteção à Deus. Solicita que a viagem ocorra de forma tranquila e segura. Bem como, pede proteção ao esposo e ao filho mais velho que não viajariam. Depois, ela beija o rosto de cada um.

Três cenas de despedida. Três ausências diferentes. A dor da partida depende de quem  vai partir e do tempo que a ausência durará. Idas e vindas. Esse é o movimento constante da história humana. A vida não tem graça sem este movimento. Tempo, espaço, relatividade: trinca que decifra a dor e a felicidade da partida. Felicidade, sim. É em busca dela que nos movemos.

Fortaleza/CE
16.02.2013

Na companhia da lua


Poucas as vezes estive tão perto da lua. Muitas viagens em avião, realizei. Nunca a lua esteve ao meu lado como companhia. Os motivos, talvez, pela maioria das vezes não ter conseguido o assento à janela ou pelo simples fato da lua não ter dado o ar da graça.

Estou sentado na poltrona 28F, mas a minha poltrona é a 28E. De Fortaleza à Recife estive entre dois homens. Um loiro, alto, corpudo, não era brasileiro, falava inglês. O outro, um senhor, brasileiro, branco, baixo, cabelos grisalhos, lia uma material sobre filmagens. A poltrona 28F pertencia ao segundo.

Durante a escala no aeroporto do Recife, meus vizinhos de poltrona desceram. Fiquei com três assentos só pra mim. Poucas pessoas subiram ao avião. Nenhum desses poucos passageiros sentou ao meu lado. Assim, mudei para a poltrona 28F.

A decolagem foi autorizada, avião acelerado, céu à vista. Olho pela janela lá está. A lua brilha linda e esplendorosa. Fiquei observando seu brilho. Nunca tinha me sentido tão próximo à ela. Tive vontade de tocá-la. Mas que isso, tive vontade de sentar sobre ela de mãos dadas com o meu amor. Queria cantar as canções de roda que embalaram minha infância e fazer uma grande ciranda com meus irmãos e amigos.

Meus desejos não foram realizados e nem podiam. O avião tinha seu destino. A lua sentindo minhas vontades  resolveu me fazer companhia até à primeira capital do Brasil. Viajou ao lado da minha janela.


26/08/2012
No ar, voando entre Recife e Salvador

Vôo TAM-3891

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O velho e a criança


O sol forte obrigou aquele senhor e a criança procurar uma sombra para repousar. Era o último sábado de junho de 2012, à sombra da mangueira, o idoso com mais de 70 anos, acompanhado de um menino de aproximadamente sete anos, sentou na calçada, passou a mão em seus cabelos brancos, olhou para frente e ficou refletindo sobre a vida. 

Pela janela do ônibus observei quando o idoso e a criança atravessaram a rua e  adentraram à área da rodoviária. Uma calça cinza desgastada e uma blusa branca de um tecido que um dia foi novo vestia o ancião. Seus pés tentavam ser calçados por uma sandália tipo havaiana de cor preta, velha tanto quanto a calça e a camisa. A idade pedia um apoio, o idoso caminhava amparado em um cabo de vassoura vermelho com o plástico preto em sua ponta, era a sua bengala. Em seu rosto, o cansaço era visível. As rugas, as marcas do tempo.

A criança não estava muito atenta ao idoso. Estava preocupada em comer. O relógio marcava 12:05h. Saboreava um salgado, desses vendido nas esquinas, acompanhado de um suco de cor clara, o qual não consegui decifrar, com o suor escorrendo em seu rosto de pele negra. Depois de atravessar a rua sentou na calçada junto ao idoso sob a sombra da mangueira, continuava mordendo o salgado e ingerindo o suco. Usava uma calça jeans azul, vestia uma blusa vermelha, em suas costas carregava uma mochila preta com detalhes azul, combinando com a cor da sua havaiana.

O idoso falava algumas palavras ao menino. Ele respondia. Era uma conversa com frases curtas. Parece que poucas palavras são necessárias para que se compreendam. Acho que o menino deveria ser neto ou bisneto daquele senhor. O que me chamou atenção foi fato de que ao avançar da idade precisamos de suportes físicos como uma muleta, mesmo uma improvisada como um cabo de vassoura. Como também precisamos de suportes humanos, mesmo que seja uma criança de sete anos que está mais preocupada em comer seu salgado e saborear seu suco.

O ônibus seguiu viagem, a próxima parada seria Fortaleza, meu destino. Fiquei olhando atentamente para os dois até minha vista não mais alcança-los. No fundo fiquei me perguntando como será minha bengala? Quem será meu acompanhante? A velhice vem, assim espero.

Fortaleza/CE, 01 de junho de 2012

Ônibus, estrada e serão

Não sei onde estou. No mapa, o google informa que estou no sertão do Rio Grande do Norte. Uma bola azul pisca constantemente como quem diz "oi, você está aqui". Não sei se quero saber onde estou. O que interessa saber a localização geográfica, a rodovia, o quilometro, latitude e longitude se estou preso dentro de ônibus azul com vidro fumê?

A terra árida, os rios sem águas, o verde que resiste ao longe confirmam que estou no sertão. Mas isso pouco vale, pois os vidros não deixam eu sentir o cheiro da terra, o vento bater em meu rosto, muitos menos ouvir o canto do carcará, a ave que pega, mata e come.

O que tenho ao meu redor é um completo silêncio, é como se eu estivesse só. A pessoa ao meu lado direito dorme, assim como 90% dos demais presente no veículo. Ao meu lado esquerdo, uma senhora negra, cabelos escovados, coberta com uma manta xadrez, ler para ver o tempo passar. Acho que é a única que está preenchendo seu tempo com algo mais útil. Seu óculos charmoso de cor marrom ajuda na leitura ao mesmo tempo em que deixa sua face mais bonita.

A minha frente, a vaga destinada aos idosos está vazia. Pela madrugada, um senhor que falava alto e tossia como uma guariba, desceu no sertão pernambucano. Sem sua presença o vazio aumentou sua proporção. A tosse do idoso pelo menos me avisava que não estava sozinho.

Neste momento, esse é o terceiro motorista que nos conduz. Nunca soubemos o nome de nenhum deles. Nunca se apresentaram, não disseram boa tarde, boa noite, bom dia, desde a partida em Aracaju. A única coisa que sei deste que nos conduz é que gosta do Queen e forró pé de serra, sonoridade que rolou ao amanhecer.

São 09:14h, o google informa no mapa que estamos em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Agora que vamos tomar café. Por isso, vou parar de escrever, estou com fome.

16/07/2012

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Madrugada, jazz e blue

   A madrugada chega sorridente. Já não sei se quero seu sorriso. Foram tantas noites correndo atrás desse momento.
   Agora sinto o vento frio bater em meu rosto. A janela treme como se fosse sua primeira contração. Eu sigo virando os copos, bebendo, fumando e pensando.
   A noite é curta. Grande é a vontade de não ver a noite acabar. Esse é meu desejo. É isso que eu quero.
   O jazz que rola no som não me deixa dormir. Mal sabe ele, cada acorde faz com que eu vire os copos em uma velocidade cada mais avançada. Cada copo que viro, lembro de Amy Winehouse. A única que nesse pequeno espaço do novo século fez a gente sentir que o jazz e o blues são imortais.
   Por isso, bebo. Beber vigora a música e renova a madrugada. Por isso, bebo!

quinta-feira, 22 de março de 2012

Remédio

Saudade...
Se seu problema fosse a dor, tomaria Doril.
Sei que a dor poderia voltar, mas também saberia um remédio para amenizá-lá por alguns instantes.
A solução seria você [saudade] não existir.
Só não sei se a vida teria sabor sem a sua presença, sem a sua dor.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

A pianista

Ao andar pelas ruas de pedras portuguesas é como voltar no tempo e, ao mesmo tempo, presenciar o presente em seus desníveis e a permanente batalha da vida em não perder o equilíbrio. Assim refletia todos os dias a caminho da casa de Ana, minha professora de piano.

Ana aproveitou sua infância correndo, saltando e brincando nas ruas de pedras portuguesas. Os desníveis que me fazem refletir sobre a vida foram os mesmos que permitiram a ela encontrar o amor pelas notas musicais.

- Cada nota do piano é um desnível, cada acerto um ponto de equilíbrio, gosta de frisar. 

Caminhar pelas ruas de pedras portuguesas, equilibrando-se em um salto alto fino, ajudou a tornear as belas pernas de Ana. Foram suas pernas que começaram a fazer com que eu perdesse o ponto de equilíbrio e me perdesse nos desníveis das notas musicais.

Lembro a primeira vez que Ana sentou ao meu lado. O seu curto vestido azul deixava à mostra seu par de belas cochas. Firme, segurou minhas mãos e levemente as colocou sobre as teclas do piano. Eu não sabia se olhava para as teclas ou para suas cochas. Forcei a concentração, fechei os olhos e comecei a tocar. Manuseava as teclas carinhosamente como se fossem as cochas da professora. Quando estava em meio a minha viagem musical, Ana anuncia que aula estava chegando ao fim. Passou uns exercícios para eu treinar em casa. Despediu-se com um beijo em meu rosto.

As aulas ocorriam as segundas, quartas e sextas-feiras, sempre às 9h. A residência da pianista era um casarão do século XVIII, bem preservado. As aulas eram ministradas em uma enorme sala. Na parede, um grande painel pintado a óleo retratava sua família no jardim do casarão. Ana estava sentada na grama, trajava um vestido vermelho que contrastava com sua pele branca, um laço vermelho e branco na cabeça, seus cabelos pretos estavam cacheados e em seu colo segurava um gato malhado. O pai e mãe da pianista estavam sentados em uma cadeira de madeira, ambos com um sorriso tímido no rosto. Eram de uma família nobre, mas não gostavam de ostentar riqueza nem quando eram retratados. Essa simplicidade também era vista nos móveis da casa. Na sala, além do painel, tinha um armário simples de madeira, uma cadeira de repouso com três lugares, dois enormes jarros com plantas, e o piano. A pianista mantinha a mesma decoração após a morte de seus pais.

Ana era professora na principal escola de música da cidade, onde lecionava à tarde. Casada com um engenheiro civil, seu esposo passava poucos dias em casa, pois sempre estava viajando a serviço do governo federal. O casal não tinha filhos. Ana dedicava seu tempo à música. Os afazeres domésticos ficavam a cargo de Terezinha, sua segunda mãe. Terezinha morava com os pais de Ana antes mesmo que a professora viesse ao mundo.

- Peguei Ana no colo no dia do seu nascimento, relembra.

Assim que saí do casarão, comecei a contar o tempo para chegar quarta-feira, seria meu segundo dia de aula. Fiz todos os exercícios, repetia a todo instante o que aprendi no primeiro dia. A vontade de ver a professora aumentava e o tempo não passava. Os ponteiros do relógio moviam-se lentamente enquanto meu coração acelerava a cada vez que pensava em Ana. Lembrava do vestido azul, das suas cochas, da sua mão sobre a minha, do beijo de despedida no rosto.

O menino de 17 anos tinha encontrado na professora de piano o sentimento que ele classificou de amor. Eu não sei classificar que sentimento era. Mas se naquela idade eu disse a mim mesmo que era amor, então era. Na quarta-feira, fui cantando pelas ruas de pedras portuguesas, o sol daquela manhã estava radiante, o céu estava completamente azul. Vi que um senhor limpava o jardim de uma casa. Pedi a ele uma solitária rosa vermelha que estava em uma roseira próximo ao muro da rua. Acho que o jardineiro percebeu o meu olhar apaixonado e permitiu que eu a pegasse.

Quando Ana abriu a porta do casarão dei-lhe a rosa. Agradeceu com um sorriso e pediu que eu entrasse. Perguntou sobre os exercícios, respondi e fui tratando de mostrar que de fato tinha treinado. Ganhei um elogio e mais um sorriso da professora. Ana usava um vestido preto, um sapato preto com um salto pequeno, cabelos soltos e um batom vermelho de tom claro nos lábios.

Ana sentou-se ao meu lado e novamente segurou minhas mãos para colocá-las sobre as teclas do piano. Segurei firme e não soltei suas mãos. Ana olhou para mim e, assim como o jardineiro, viu em meus olhos o amor. Ficamos olhando um para o outro fixamente. Não resisti e roubei um beijo da professora.

Esse beijo durou seis meses. Ana foi a minha primeira mulher. Junto com o amor que sentia por ela, aumentou também meu amor pelo piano. No primeiro mês, nossos encontros amorosos ocorriam somente nos dias das aulas, depois foi ficando mais intenso. Queria ter aquela mulher de 35 anos mais perto de mim todos os dias. Quando o esposo chegava de viagem era sofredor. Somente assistia às aulas. Às vezes, ligeiramente, passava a mão em suas pernas. Quando ele viajava, os dias eram de festas e alegrias.

Era uma sexta-feira de primavera, aperto a campainha e quem abre a porta é Terezinha. Comunica que não haverá aula, pois a professora estava a caminho do porto com o marido, ia viajar e não tinha data para retornar. Saí desesperadamente correndo para o porto. Pela primeira vez não dei atenção aos desníveis das ruas de pedras portuguesas. Corria sem parar. Queria entender o motivo da viagem.Por que Ana não me informou? Alguma coisa estava errada. Ao chegar ao porto o navio estava partindo. Ao me ver, Ana acenou. Seu marido também me viu. Ele a abraçou e a levou para outra parte do navio, longe do meu olhar. Eu apenas chorei.

sábado, 12 de novembro de 2011

Sábado

Sol ou chuva.
Nada me importa, nem me incomoda.
Hoje é sábado.


Que venham os raios solares.
Quem venham os pingos das chuvas.
Só peço uma coisa.
Deixem o meu sábado desfilar na avenida.
Afinal, foram 6 dias de espera.

domingo, 23 de outubro de 2011

É tempo de fazer o caminho inverso

Às vezes tenho a sensação de que já vivi o presente momento. Bem como, quando retorno a minha cidade fico a passear por ela em uma busca das impressões da minha infância. Mas não as encontro. Não sei o motivo. Não sei se elas desapareceram de vez ou eu não as procurei no lugar certo.

Assim que estou me sentido. Passando por um momento já vivido. Com muita dúvida em ir ao encontro do futuro, com medo de encontrar o passado e nessa soma não conseguir chegar a formula do presente.

Mas nunca deixei de fazer aquilo que quis. Nunca tive medo de errar, nem medo de não encontrar a fórmula certa. Minha única preocupação é se estou no tempo certo para isso. Tem horas que pensar um pouco mais é a melhor tática, mesmo que a estratégia siga em movimento.

Preciso confiar no meu passo. É tempo de maratona e não de corrida de 100 metros. É preciso correr devagar e correr muito. Nada de corrida contra o tempo, não estou competindo com ele. Faço dele meu aliado. Não estou aqui para dividir, estou em fase de somar. Já dividi e subtrai na hora certa. Agora vou fazer o caminho inverso. Espero está somando na hora certa também.

Somar é muito mais complicado. Afinal, quando você divide e subtrai, você separa. Separa porque você quer um tempo para você. Quando você adiciona, você quer um tempo para juntar seu tempo com o tempo do outro. Você já não pensa mais no seu eu. Você passa a pensar por dois.

Pensar por dois é bem melhor quando o outro permite você pensar por ele. Quando você pensa por dois sem a autorização do segundo não é nada bom. Mas não é esse o meu problema. Meu problema é saber se já é tempo de pensar por dois. Se esta é a hora certa de fazer o caminho inverso e voltar a fazer soma.

Sigo pensando. Afinal, decisão como essa exige reflexão. Refletir não faz mal a ninguém. Só não posso deixar o tempo dominar minha reflexão. Pois, antes de passar a pensar por dois, a melhor coisa é aprender a controlar o tempo.

Tempo, tempo, tempo. É tempo de fazer diferente. 

Abraço partido

Eu, sentado no chão. Você me abraça fortemente por trás.
Isso basta para saber que você estará partindo.
Todas as vezes que você vai embora, só me resta ouvir Cazuza.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Pela estrada...

As estradas seguem sentidos muitas vezes indecifráveis a nossa lógica formal. Achamos que os sentidos norte-sul leste-oeste por si só explicam tudo. A vontade de chegar, bem como a vontade de partir, faz com que nos preocupemos com o sentido linear das rodovias. Uma camada de asfalto sinalizada ao meio com listras amarelas, hora continuada hora espaçada, listras brancas em suas bordas, em sua faixa de terra lateral placas verdes com letras brancas indicando lugares que não nos interessam, pois o sentido para nós é linear, é reto, nada de curvas, nada de esquerda e direita, nada de lombadas e sonorizadores, nada que atrapalhe nosso percurso, desvie nosso caminho.

Quando você não está ao volante o sentido linear desaparece. Você consegue perceber o verde da mata, um rio que passa ao lado, um pássaro que voa no horizonte. Primeiro porque o tempo parece não passar, segundo porque à sua frente novas paisagens são feitas e desfeitas, o imperceptível passa a ser observado. Casas, comércio, animais, arvores e pessoas. Elementos não observáveis pelo condutor ganham notoriedade pelo passageiro ao lado, pelo simples fato de que este passageiro também não é percebido por aquele, afinal, você está ao lado dele e não à sua frente. Quem conduz que chegar e é para frente que se anda e olha.

Tentei ficar 15 minutos olhando para frente como se fosse eu o condutor. Tempo suficiente para receber mais de 20 ordens e avisos. Velocidade máxima 80km, proibido ultrapassar, lombada a 500m, inicio da 3ª faixa, término da 3ª faixa, curva à direita, curva à esquerda e outros recados oficiais. Depois do teste olhei ao lado direito e vi uma casa branca no topo de uma colina, parecia uma casa que desenhava quando criança, um coqueiro ao lado, o vento balançando suas palhas sem cumprir nenhuma ordem sem receber nenhum recado oficial. Se eu estivesse ao volante não teria recordado um momento tão bonito da minha infância quando transmitia minha ingênua forma de ver o mundo de maneira colorida e bucólica em uma página de papel sulfite.

Olhando ao lado esquerdo observei um enorme lago onde o sol espelhava seu brilho em uma tarde de agosto. Minha amiga que conduzia o veículo continuava vendo somente o asfalto e suas linhas amarelas e brancas, o movimento linear a obrigava ver apenas carros e carros.

Comecei a refletir sobre a liberdade. Até onde nossas descobertas proporcionam maior liberdade? Quem é mais livre, nós ou arvores, ou os pássaros? Até onde a liberdade de locomoção proporcionada ao homem pelo automóvel não é uma cegueira que o impede de ver as cores do mundo, pior que isso, o impede de ver o outro homem que está ao seu lado? As aves voam no céu e não precisam de leis de trânsito, placas e sinalizações, por que nós dotados de consciências precisamos de leis para tentar conviver o mínimo em sociedade?

Nossa liberdade é de fato pequena, restrita e controlada. Está dentro do automóvel não basta, temos que seguir dentro da linha amarela para seguirmos em frente e vivo. São os homens e suas contradições, contradições essas que fazem do homem um ser livre. Livre para inventar o automóvel com a pretensão de voar, mas não tão livre como os pássaros, pois diferente destes, os homens precisam de linhas amarelas e brancas e placas verdes para controlar seu voo.

É Gilvani. Siga no volante, afinal quero chegar a Aracaju. 

15 de agosto de 2011.
BR-101
Trecho Alagoinhas/BA à Aracaju/SE

domingo, 24 de julho de 2011

Esqueça-me

     Tudo o que eu buscava era a felicidade.
  Quanto mais eu a procurava mais se escondia de mim. Cansei dessa brincadeira. Deixei a felicidade de lado.
   Passado alguns dias, ela veio atrás de mim. Simplesmente respondi:
   - Esqueça-me. Já encontrei aconchego com a solidão.