terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Meu programa de TV favorito

Era uma quarta-feira, dia ensolarado, trânsito congestionado, um vai e vem de pessoas nas ruas. Em meio a esse agito, ainda a caminho do trabalho, recebi pelo celular uma mensagem do meu patrão. Estava convocando todos os gerentes setoriais para uma reunião às 20h. Fiquei mais chateado ainda, não bastava o caos no trânsito. Depois que li a mensagem, reclamei:

- Putz, logo hoje! Justo no horário do meu programa de TV favorito. Isso não poder ser verdade.

Deixei minha esposa no consultório médico e meus dois filhos na escola. Segui meu caminho, rumo à empresa. Logo que cheguei, fui notificado via oficio circular sobre a reunião de balanço das vendas no primeiro semestre.

Passei o resto do dia preparando relatório e buscando encontrar uma boa desculpa para não comparecer na reunião. Preferia ficar resfriado de uma hora para outra, só assim ficaria em casa assistindo “O milionário”. Desde adolescente, tenho por hábito assistir programas de TV que testam o conhecimento dos participantes. Fico em frente à TV tentando responder as perguntas como se fosse eu o interrogado. No mês passado, durante as férias escolares de meus filhos, eu e eminha esposa transformamos a sala da nossa casa no palco do programa “O milionário”. Com as cadeiras, organizamos o espaço destinado à platéia. Uma das paredes foi coberta por um grande papel cinza estampado com a logomarca do programa. A cor do papel realçou as letras vermelhas e a imagem da moeda dourada que substituía o último “o” da palavra milionário. A decoração ficou durante todo o mês das férias. Divertimos-nos muito, as crianças adoraram. Confesso que também adorei a brincadeira.

Todas as quartas-feiras, assisto o programa acompanhado de minha esposa e meus filhos. Reservo esse dia da semana para ficar mais perto deles, pois durante os outros dias chego tarde do trabalho. É um compromisso que gosto de cumprir, tanto que durante esse ano não tínhamos falhado em nenhuma quarta-feira. Mas eu estava com muita dúvida, sou gerente de um dos setores mais importante da empresa e deveria participar da reunião. É certo que a reunião não tinha uma platéia animada e entusiasmada, nem tão pouco seria em uma sala colorida, nosso relatório não eram apresentados em um painel eletrônico e o presidente da empresa não era sorridente como o apresentador do programa “O milionário”. Só emitiria um sorriso no final da reunião caso os balancetes apontassem um crescimento no lucro, valor que não seria dividido com a gente.

No final da tarde, quando eu estava fechando os últimos relatórios, minha esposa telefonou e pediu que eu levasse pizza para comermos na hora do programa. Confirmei que compraria. Não falei nada sobre a reunião. Conclui os relatórios e fui deixá-los na secretaria para que as cópias fossem reproduzidas para todos os membros da reunião. Fiquei sabendo que a reunião seria naquele dia porque o patrão viajaria a passeio com a sua família na sexta-feira. Foi então que decidi que não deixaria de cumprir meu compromisso com a minha família para garantir que o meu patrão honrasse o seu com a sua.

Voltei para minha sala, liguei para a pizzaria, encomendei duas pizzas tamanho família e fui para minha casa. Tomei um banho para relaxar, liguei a TV, sentei na minha poltrona. Minha esposa e meus filhos também vieram para sala, o nosso ritual de todas as quartas-feiras estava começando. O programa iniciou pontualmente, o auditório estava lotado como em todas as noites. Na primeira fila, estavam os familiares e amigos do participante, um jovem de 18 anos. Seu rosto um pouco assustado aparecia no telão enquanto o apresentador falava seu nome e a sua cidade de origem.

O confronto estava começando, ao centro, num pequeno balcão de vidro estavam cara a cara o desafiador e o desafiado. Eu inquieto esperava a primeira pergunta como se fosse o participante. Sofria com cada suspense feito pelo apresentador e a cada resposta emitida pelo jovem. Foi o programa mais emocionante que assisti. Pela primeira vez alguém faturou o prêmio de R$1 milhão. As barras de ouro que estavam em um painel de vidro agora pertenciam a um jovem de 18 anos. Com certeza sua vida não seria mais a mesma a partir daquela noite. Eu estava muito feliz pela sua vitória e por ter vivido mais esse momento ao lado das pessoas mais importantes da minha vida: minha esposa e meus filhos. Com certeza, eu tive um bom motivo para não ter ido à reunião.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

"Hoje tem espetáculo?"


O sol radiante daquelas manhãs abrilhantava a nossa festa. Era o momento da diversão, o instante em que o símbolo da alegria estava próximo ao seu público convidando a todos para o espetáculo. O palhaço perguntava:

- Hoje tem espetáculo?

Eu e outras dezenas de crianças que o seguia respondíamos uniformemente:

- Tem sim Senhor.

- Tem o globo da morte?

- Tem sim Senhor.

- Tem palhaço, equilibrista e o mágico?

- Tem sim Senhor.

Várias outras perguntas eram feitas. Todas respondidas com entusiasmo. O artista circense, em agradecimento a nossa animação, jogava para o ar cortesias e a rua que era o palco do desfile, por um instante, tornava-se o palco da disputa pelo precioso prêmio.

O sol não era incômodo. O palhaço continuava andando com suas pernas de pau, muitas outras crianças seguiam seus passos, as vozes aumentavam e a disputa pela cortesia também. Conseguir a cortesia nunca foi o fim por si mesmo. Ao contrário, o bom da festa pelas ruas era nossos risos, nossa euforia.

Encontrávamos forças para seguir caminhando, cantando e gritando com o palhaço. Nós participávamos da animação como verdadeiros protagonistas e não como meros espectadores. Havia uma ligação necessária entre nós e o palhaço. Precisamos dele para fazer de nossas manhãs uma festa pelas ruas da cidade e, ele precisava da nossa participação para o sucesso do circo. Somente hoje percebemos esse jogo de dependência, no momento tudo era uma grande alegria.

- Vou ali e volto já. Dizia o palhaço.

- Vou chupar maracujá. Respondíamos.

- Vou ali e volto cedo.

- Vou chupar limão azedo.

E assim percorríamos as ruas, asfaltadas ou não. Era uma manhã de festa ao ar livre. Um palhaço com suas pernas de pau seguido por dezenas de crianças com suas pernas de osso. Parafraseando Paulinho da Viola, “foi um circo que passou em minha vida”.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Somos sarará crioulo


Quem sou eu? Vira e mexe faço essa pergunta a mim mesmo. Sou um ser social? Sou um objeto? Sou um assessório? Sei lá. Sou tantas coisas ao mesmo tempo. Flerto por vários mundos, mas, particularmente, adoro passear pelo mundo da música.

O reggae de Bob Marley não seria o mesmo e ele não poderia ser chamado o rei dos rastafáris. Os meninos da Tropicália exibiam suas cabeleiras e as movimentavam ao som do novo ritmo musical. “A cabeleira, cabeluda, descabelada” passou a ser símbolo de uma geração alternativa. Para outros, a cabeleira era suspeita e a pergunta ficava no ar, “olha a cabeleira do Zezé, será que ele é, será que ele é?”. Não sei e também não me interessa.

Nos dias de hoje, enquanto muitos procuram me alisar, me esticar, me cauterizar, me fritar na chapa, Vanessa da Mata com sua voz divina e maravilhosa, faz de mim o seu visual. Com o amarrado que só ela faz, fico mais volumoso. Chamo mais atenção quando ela coloca aquela flor vermelha e seu perfume de sim. Gosto da Vanessa porque ela me aceita da forma que cresci em seu couro cabeludo. Inclusive, com a música, brinca com aquelas, como a sua própria tia, que utilizam o “Joãozinho” ou o famoso bob para alisar as pontas.

Luis Caldas fez sucesso com seu “fricote” por causa de mim. Quem não se lembra da “nega do cabelo duro que não gosta de pentear, quando passa na boca do tubo o negão começa a gritar, pega ela aí”. Pois é, recentemente, as Três Meninas do Brasil chegaram a perguntar musicalmente para nega: “Qual o pente que te penteia? Qual o pente que te penteia, ô nega?”. Arnaldo Antunes entrou na conversa e foi logo rasgando o verbo “quem disse que cabelo não gosta de pente”. Sandra de Sá mandou de lá, em defesa da nega, “a verdade é que todo brasileiro tem cabelo duro, sarará crioulo”.

Na música também sou sentimento. Despertei saudades de um amor vivido, um fio de cabelo comprido que esteve grudando em suores de amor, era a única lembrança deixada no paletó. Saudades, muitas saudades daquela índia, de “seus cabelos negros, nos ombros caídos, negros como a noite que não tem luar”.

Viu? De boca em boca, de música em música, vou ganhando novos significados, novos conceitos. Comprido, cortado, tingido, trançado, escovado, aparado, descolorido, feio ou bonito, seco ou molhado. Múltiplas identidades reveladas ao som da música. Uma única certeza, independente da forma, do tipo, do estilo, sou cabelo. Espero continuar com todo esse sucesso, pois uma coisa posso dizer, não “são dos carecas que elas gostam mais”.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

O milionário

“Boa noite. Está começando o programa O Milionário”, anunciou o apresentador. Minhas pernas começaram a tremer como dois pés de bambu durante uma ventania. Disfarcei o nervosismo com um sorriso sereno. Aos poucos, fui ficando calmo. Minha atenção foi direcionada ao apresentador que caminhava em direção ao seu assistente de palco. Este tinha em suas mãos os envelopes com as perguntas que seriam feitas no programa.

Com envelope vermelho em sua mão direita, Marco Aurélio posicionou-se a minha frente. Um pequeno adesivo com a logomarca do programa fechava o invólucro. Ele retirou o aderente e pegou a ficha onde estava escrita a primeira pergunta da noite. Olhei em seus olhos buscando demonstrar confiança e esconder meu nervosismo. Olhando para mim, leu o quesito. Respondi e fechei os olhos. Os aplausos da platéia informaram meu acerto. Fiquei feliz.

Passei a mão sobre o bolso da minha camisa para sentir meu amuleto da sorte, um trevo de ferro, presente de um primo meu, carrego comigo desde os meus 15 anos. Enquanto isso, Marco Aurélio recebia de Felipe o envelope azul. Como eu tinha avançado para a segunda pergunta, o novo envelope era maior que o primeiro e estava fechado com dois adesivos, referindo-se a ordem das perguntas. Marco Aurélio leu a segunda pergunta, anunciou o tempo estimado para a resposta – 15 segundos – e acionou o cronômetro. Retirei o trevo do bolso e segurei entre minhas mãos. Respondi e resolvi encarar o telão. Em poucos segundos foi informado meu avanço a pergunta seguinte. Sorri e sussurrei:

- Agora só restam três envelopes.

Sabia que as perguntas seriam mais difíceis a partir daí.Minhas mãos começaram a ensopar de suor. Peguei um lenço no bolso da minha calça e as enxuguei. Nesse momento, Marco Aurélio fez o anúncio dos patrocinadores do programa e frisou que nenhum participante tinha conseguido passar da terceira pergunta. Com isso, o apresentador me deixava mais nervoso e apimentava o programa para manter os telespectadores frente à TV. As pessoas que estavam assistindo queriam ver se o jovem de 18 anos passaria pela pergunta do envelope verde. A cor da sobrecarta representa a esperança. Acertar a resposta garantiria a mim R$500 mil, isto é, a metade do valor total pago como prêmio pelo programa. A resposta errada era o passaporte de volta para casa com o bolso vazio. Marco Aurélio leu a pergunta pausadamente. Respondi sem pressa. Por alguns segundos ficou aquele clima de suspense, a produção do programa colocou uma musica ambiente. O suspense era preciso, o apresentar sempre frisava que nenhum participante tinha passado dessa fase do programa. Ele perguntou se eu queria desistir e respondi que não. Passado o clima de suspense, o telão anunciava minha façanha em acertar a pergunta do envelope da cor da esperança. Não me contive, gritei de felicidade e fui até a platéia abraçar meu primo, aquele que me presenteou o trevo da sorte.

Voltei ao palco do programa. Fui parabenizado por Marco Aurélio. Eu estava muito feliz com o acerto e Marco Aurélio pelo índice da audiência que subiu segundo informes de seu assistente de palco. Minhas pernas voltaram a tremer como no início do programa. As mãos não paravam de suar. Mesmo nervoso, respondi sim a Marco Aurélio quando ele perguntou se podíamos seguir com o programa. Ele abriu o envelope cinza. O papel brilhoso ressaltava os quatros pequenos adesivos que lacravam o invólucro. Precisava subir esse penúltimo degrau da escada que levava ao prêmio maior. Não conseguia me acalmar, fiquei embaraçado com a pergunta feita pelo apresentador, pedi que repetisse. Ouvi atentamente, gaguejei um pouco, mas consegui responder. Outra vez, preferi não olhar para o telão e fixei meus olhos na platéia. Quando todos se levantaram e aplaudiram, meu coração disparou, começou a bater rapidamente. Os aplausos era a confirmação, tinha chegado à fase final do programa.

“Isso é inédito”, exclamou Marco Aurélio. A façanha fez com que o apresentador anunciasse o intervalo comercial. Eu aproveitei e fui outra vez a platéia receber um abraço de meu primo. Tomei um pouco de água, enxuguei o suor e mostrei a ele o trevo da sorte. Recebi um abraço apertado do assistente de palco e um aperto de mão do apresentador. O programa voltou ao ar. Frente a frente com Marco Aurélio, observei em sua mão esquerda o envelope da cor das barras de ouro que seria entregue a mim, caso acertasse a resposta. Foi explicado que a pergunta nãos seria de múltipla escolha, teria que responder no tempo máximo de dez segundos. Todos na platéia ficaram em pé. O nervosismo de antes duplicou. Minhas pernas não paravam de tremer. Marco Aurélio abriu o envelope, explicou novamente a regra para resposta e, depois do suspense, fez a pergunta. Respondi com os olhos fechados. Ouvi o grito da platéia e sentir papel picado caindo sobre minha cabeça. Quando abri meus olhos, vi meu primo caminhando em minha direção, abraçou-me fortemente exclamando “você é milionário”.

domingo, 25 de outubro de 2009

Fim de tarde


Levantei, olhei pela última vez aquele espetáculo que chegava ao fim. Pus meus pés em meus chinelos brancos e caminhei ao encontro com as águas. A areia que cobria meus pés foi levada e embalada pelas ondas, que assim como eu, despediam-se de mais um dia de verão.

O vento forte que mais cedo espalhava as areias, agora era ameno e um pouco frio. Os pingos coloridos que subiam e desciam as ondas agora eram poucos. Os mais firmes continuavam a aventura do equilíbrio sobre as águas em movimento. Para estes, a ida do sol para o oriente não significava o fim da aventura, mas para outros sim, para a maioria.

Os corpos que mais cedo desfilavam com poucas roupas passaram a ser cobertos com panos maiores. Biquínis foram cobertos por camisolas e as sungas por bermudas e camisetas. O chinelo trocara de posição com a luva, a areia fria permitia aos pés dispensa-los. Os óculos escuros viraram enfeites na cabeça, sem o sol perderam sua função e, logo, ganhou outra. Isto é a criatividade humana.

Os boleiros tentaram aproveitar os últimos raios da claridade na busca do gol. A partida cronometrada pelo relógio é interrompida quando o rei dos astros dá o apito final. Ver a redonda no escuro é complicado.

Quando sol ainda emitia seus fortes raios e minha pele pedia protetor solar, eu entrei na água, mergulhei por alguns minutos, brinquei com as ondas, as desafiei e fui arrastado por elas. Ficamos nesse estica e puxa por um bom tempo. Nada mais ousado que desafiar o infinito. Infelizes aqueles que nunca tentaram, jamais poderão descobrir até onde vai à força humana.

Caminhando pela areia, deixei minhas marcas que em poucos instantes eram desfeitas pela maré. Ao longe avistei um pedaço de madeira. Restos de cordas e ferros atracados permitiam concluir que deveria ser de uma velha embarcação. Sentei e pude ver por trás dos coqueiros o sol preparando-se para viajar para o outro lado da terra. As palhas dos coqueiros balançavam em um ritmo sincronizado com o movimento do sol. As palhas refletiam o brilho dos raios. Era uma despedida, sem tristeza e lágrimas, ao contrário, era um show único onde às ondas do mar emitiam o som e as palhas dos coqueiros ditavam o ritmo da dança. Um conjunto perfeito, o encontro dos três elementos – mar, vento e sol – resultou nesse lindo fim de tarde.

“Cada dia é um dia roubado da morte” (Clarice Lispector)

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Duas derrotas


Iniciada a última parte do programa, peguei os envelopes, caminhei em direção a Marco Aurélio e os entreguei. Como todas às vezes, sorri, mas confesso que pela primeira vez não fiz um sorriso falso perante as câmeras.

Nenhum participante tinha chegado a esta fase do programa. As manobras realizadas por Marco Aurélio impediam que qualquer participante chegasse à fase final. Nesse dia, tudo foi diferente.

Confesso que eu era obrigado a participar das falcatruas, afinal, não podia perder meu emprego, mas diferente de marco Aurélio, me sentia mal com cada manobra realizada. Nessa noite, percebi que podia fazer diferente. Podia evitar as manobras de Marco Aurélio, deixar de pactuar com suas fraudes, no entanto, tinha a certeza que estaria despedido. Eu não poderia aceitar mais essa situação, tinha remorso, já ele, ficava feliz com as tristezas e desespero das pessoas que iam a seu programa tentar ganhar o prêmio para mudar a vida.

Passei no corredor e vi que ele estava no camarim. Aproveitei para colocar meu plano em prática. Durante o intervalo comercial, substitui as perguntas selecionadas por mim e Marco Aurélio. Voltei para o estúdio sem deixar pistas. Eu estava um pouco nervoso, tomei água e sentei. Fiquei a espera de Marco Aurélio, a partir daquele momento ele enfrentaria dois adversários: o participante do programa e eu - nos bastidores.

Mesmo com o rosto maquiado, pude notar sinais de preocupação e nervosismo em Marcos Aurélio. O sorriso espontâneo desapareceu de sua face. Com as mãos, não parava de ajeitar o nó de sua gravata vermelha que contrastava com seu terno azul anil. Eu continuei agindo normalmente. Pelo fone de ouvido sugeri a Marco Aurélio que desafiasse o participante oferecendo a metade do prêmio para que ele desistisse do jogo. Assim ele fez, mas o participante não aceitou a proposta. Disse para que continuasse com o programa, voltei a sentar na poltrona a sua frente e fiquei olhando seu rosto no momento em que abriu o envelope. Assustado, passou a mão na cabeça desmanchando seu topete. Pelo fone de ouvido, perguntei se estava tudo bem. Minha pergunta foi ignorada. Eu olhei para ele e sorri em ver a situação em que coloquei Marco Aurélio. A pergunta foi lida e, em seguida, mostrada às câmeras como mandam as regras do jogo. Por um instante, a façanha de mostrar as perguntas às câmeras, após serem lidas, não foi um elemento favorável a ele. Em menos de dez segundos o participante respondeu corretamente.

O programa seguiu sem ninguém perceber o que estava acontecendo. Apenas Marco Aurélio sabia das trocas das perguntas, eu e ele cuidávamos dos envelopes. Continuei sentado na poltrona. Cruzei as pernas, retirei o fone do ouvido e pus sobre a mesa. Permaneci com os olhos fixados em Marco Aurélio. Tinha chegado a minha hora de torturá-lo com meu sorriso de deboche. Por um instante, passou em meus pensamentos lembranças das fraudes feitas, bem como, dos rostos tristes das pessoas que saiam do programa sem ganhar nada. Vi o suor escorrer pelo rosto de Marco Aurélio, quem o conhecia, notava que a firmeza de antes não o acompanhava mais. Eu, cumprindo meu serviço de assistente, fiz questão de entregá-lo o lenço de papel para que limpasse seu rosto suado. Afinal de contas, sua bela face não podia ficar brilhosa como seus belos sapatos pretos.

A forma séria como me olhou demonstrou ódio. Eu sabia que sua raiva era por saber que estava sendo trapaceado. O cara esperto e inteligente estava sendo enganado pelo seu simples assistente de palco, fiel escudeiro de suas trapaças. Eu apenas colocava em prática o que tinha aprendido com ele, meu grande mestre. O feitiço virou contra o feiticeiro.

Fiz o possível para que Marco Aurélio não manobrasse o jogo. Retirei tudo que tinha no bolso de seu paletó, inclusive sua caneta dourada da sorte. Ao colocar a mão no bolso, ele encontrou somente um bilhete onde escrevi “boa sorte”. Sem alternativa, o envelope final foi aberto. Eu mais uma vez emiti um sorriso cínico a Marco Aurélio, ele, descontrolado, deixou a pergunta cair no chão. Levantei da poltrona, juntei a ficha e de uma forma sutil fiz a pergunta ser captada pelas câmeras. Entreguei a ele a ficha, andei até a poltrona e me sentei.

O participante ganhou o prêmio de R$ 1 milhão. Eu saí do estúdio antes da entrega do prêmio. Fui caminhando pelas ruas, admirando a beleza da lua e do céu estrelado. Minha despedida do programa foi com sabor de vitória. Eu fiz Marco Aurélio sofrer duas derrotas nesta noite.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

20 anos sem o 'Rei do Baião'


No dia 02 de agosto de 1989, morreu um dos maiores ícones da música brasileira, Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”.

Gonzaga foi o criador de um gênero musical genuinamente brasileiro, o forró. Fez com a sanfona, o triangulo e a zabumba o ritmo que foi popularizado de norte a sul do país. Retratando, de uma forma simples e bela, o cotidiano do homem nordestino e de sua cultura. O Rei do Baião fez do forró o mais brasileiro de todos os ritmos.

As dificuldades vividas pelo povo nordestino, a simplicidade de vida e o orgulho pela sua terra são notórios nas letras, no ritmo, na dança, no chapéu de couro que são características únicas do pé-de-serra.

Nascido em Exu, interior de Pernambuco, Luiz Gonzaga era um homem simples, negro e matuto. Segundo ele, “um amarelo, bochudo, zambeta, cabeça de papagaio, feio pá peste”. Observando o pai animar bailes e consertar sanfonas, Gonzaga ganha intimidade com o instrumento que mudou sua vida ainda criança. No inicio, sua mãe Dona Santana não queria que o filho seguisse o caminho do pai, Seu Januário.

Quando jovem, em 1930, Gonzaga se alista ao exercito e ficou conhecido como “Bico de Aço” pela sua habilidade com a corneta. Em 1939, sai das forças armadas e vai para o Rio de Janeiro tentar a sorte como músico. Começou a cantar no “Mangue” (região do meretrício do Rio de Janeiro) como ele dizia. Tocou de tudo: choros, sambas, valsas, tangos e outros ritmos, porém, nenhum ritmo de sua região. Certa vez, foi questionado por um grupo de cearenses, por não tocar músicas nordestinas. Com o puxão de orelhas, as músicas de sua terra passaram a ser o carro chefe de sua carreira.

“Dança da Mariquinha” foi a primeira música gravada enquanto cantor, em 1945. Nessa data, já tinha sido contratado pela Rádio Nacional depois do sucesso alcançado ao vencer, em 1941, o concurso no famoso programa de Ary Barroso com a música “Vira e Mexe”.

Seu maior sucesso, sem dúvida alguma, foi e continua sendo “Asa Branca”. Uma espécie de hino no nordeste, a música foi composta em parceira com Humberto Teixeira e gravada em 1947. A primeira lição do ABC nordestino é aprender a cantar “Asa Branca”. A letra fala do sertão, da seca e da esperança “da chuva cair de novo, pra mim voltar pro meu sertão”. Em parcerias com outros grandes compositores como Zé Dantas, Onildo Almeida e Zé Marcolino criaram lindas canções que até hoje são obrigatórias nos repertórios das grandes festas juninas que animam o nordeste.

Luiz Gonzaga e a Política
No que se refere à política, Gonzaga foi muito conservador. Apesar de suas composições retratarem a vida difícil do povo nordestino, como nas músicas “Asa Branca”, “Vozes da Seca”, “Ai seu Generá” e “Andarilho”, tinha horror aos políticos denominados de esquerda. Em sua passagem pelo exercito passou admirar os generais e, em 1964, declarou apoio à ditadura.

Gonzaga sempre era convidado para tocar nos saraus presidenciais e chegou a afirmar que “não havia tortura no Brasil”. Mas, foi vitima da própria ditadura, que o proibiu de cantar, em shows, as músicas “Vozes da Seca”, “Paulo Afonso” e “Asa Branca”.

Com o aumento das denuncias de tortura e mortes de vários ativistas, Gonzaga vai se desprendendo um pouco mais dos governantes e compõe com Humberto Teixeira “Salmo dos Aflitos”. No governo Geisel, em 1978, no seu disco “Dengo Maior”, a música foi incluída. Em 1980, gravou “Pra não dizer que falei das flores” de Geraldo Vandré.

Gonzagão e Gonzaguinha
Muitos se decepcionavam com a posição política de Luiz Gonzaga, incluindo seu filho Gonzaguinha. Durante anos, pai e filho tiveram um relacionamento difícil e distante. Somente, em 1981, os dois fizeram as pazes e proporcionam um grande momento histórico da música popular brasileira com a turnê “Vida de Viajante”, registrada no disco “Descanso em casa, moro no mundo”.

O Rei do Baião continua vivo
Em sua trajetória, Gonzaga dividiu o palco com grandes artistas como: Gal Costa, Sivuca, Elba Ramalho, Carmélia Alves, Marinês, Nélson Gonçalves, Dominguinhos, Oswaldinho do Arcodeon, Genival Lacerda e Fagner.

Entre suas centenas músicas gravadas algumas são obrigatórias em qualquer coletânea do cantor: Nem se Despediu de Mim, Sanfoninha Choradeira, ABC do Sertão, Xote das Meninas, Samarica Parteira, Qui nem Jiló, No meu Pé-de-Serra, Numa Sala de Reboco, Súplica Cearense, Juazeiro, Assum Preto, Vozes da Seca, Aproveita Gente, Feira de Caruaru, Riacho do Navio, Respeita Januário, Forró nº. 1, Cheiro de Karolina, Baião, Olha pro Céu, Triste Partida, A volta da Asa Branca, Paraíba, Forró de Cabo a Rabo, Cintura Fina e Pagode Russo.

Luiz Gonzaga continua vivo entre nós. Suas canções continuam animando festas juninas país afora. Não há festa de São João sem Gonzagão.
Os 20 anos da morte do “Rei do Baião” não silenciaram a sua sanfona.

sábado, 1 de agosto de 2009

Santa Chuva

Lembro perfeitamente dos meus olhos acompanhando a descida do barquinho de papel na correnteza formada pelas águas da chuva. Fazíamos dezenas deles. Todos seguiam o mesmo rumo, correnteza abaixo. Foram feitos para isso. Porém, quando soltávamos, nossos olhos acompanhavam o movimento de descida como se não quiséssemos que partissem ou como se estivéssemos atentos para que a descida fosse perfeita, pois, sempre ocorriam pequenos atropelos pelo percurso. Seguíamos até o encontro das águas com as tubulações. Voltávamos e soltávamos outro e, assim, repetíamos até acabar os brinquedos, feitos com restos de jornais e revistas, produzidos naquela tarde chuvosa.

Água, muita água. Corríamos às biqueiras das casas. A água caia com força em nossas cabeças. O revezamento era feito e todos passavam por debaixo delas. A disputa era pelas mais altas. Quem chegava primeiro comandava a área e quem chegava por último era a mulher do padre.

A chuva permitia que a criatividade invadisse nossas mentes. Construíamos, com muita areia e pedaços de pau, grandes represas. Éramos verdadeiros engenheiros construindo barragens. A descida da água era controlada por nós. Na verdade, controlávamos até quando a água queria, muitas vezes, ela se rebelava e impunha sua força passando por cima da nossa construção. Fazíamos tudo de novo, com mais areia e mais pedaços de pau. Momentaneamente, controlávamos a força da natureza.

Chuva forte combinava com manga no chão. Corríamos ao quintal da minha casa, ao da minha tia e dos vizinhos. A chuva permitia por um instante a propriedade comunal das terras e das frutas. Para nós eram comunais, para seus donos, não. Mas a aventura não tinha limites. Muros, cercas e cachorros eram superados. Nada que um bom trabalho em equipe não resolvesse. Comíamos as mangas, muitas vezes, rindo dos obstáculos que superamos para apanhá-las. Acho que os sacrifícios às tornavam mais saborosas.

Nem sempre aproveitei a chuva dessa maneira. Muitas vezes, fiquei em casa, deitado, embrulhado em um bom lençol grosso, ouvindo o barulho nas telhas e sentindo seus respingos. O som emitido era uma verdadeira sinfonia onde as notas musicais não podiam ser decifradas, só ouvidas e guardadas na mente. Era um som que embalava sonos e sonhos profundos. Chuva, som, sono e sonho.

Os raios e trovões, chuva ou outra, davam o ar da graça. Por trás das arvores, podíamos ver o lindo clarão de luz e ao longe seu estrondo. A fé cristã entrava em cena. Jogávamos no chão do quintal a palha abençoada pelo padre no Domingo de Ramos. Minha mãe dizia que era para proteger nossa casa de um raio. Mas, eu ficava olhando o lindo clarão dos raios e em meu olhar inocente enxergava mais beleza que perigo. Raios, trovões, clarões.

Sinto saudades dos banhos nas chuvas da minha Amazônia. Dos barquinhos de papel, das biqueiras, das represas de areia, das mangas expropriadas e da velha palha abençoada. No Pará é assim, sempre chuva, santa chuva.



“vai chover
de novo
deu na Tevê”
(Marcelo Camelo)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Meu primeiro encontro com amor

Ainda era madrugada. Nem sei se dormi. A espera deixou-me ansioso. Imaginações tomaram conta da minha mente. Por um instante, acho que dormi acordado. 

Quando ouvi aquela voz dizendo “vamos nos arrumar”, não teve muito significado para mim, pois eu já estava arrumado. A minha noite foi dedicada somente a isso, preparar o dia seguinte. 

Pegamos a estrada, 3h da manhã, em um dia das férias de julho de 1989. A cada instante que passava, mas ansioso ficava, mais imaginações vinham à cabeça. Enfim, chegamos à Salinopólis, litoral paraense, às 6h. O nascer do sol revelava aos meus olhos um espetáculo nunca visto, inédito a íris e às pupilas dos meus olhos. Meu encontro com Atlântico, depois de muita ânsia e imaginações, aconteceu. Ele era muito maior e muito mais salgado do que esperava.

O carro mal parou, eu saí correndo ao seu encontro. Quanto mais me aproximava, menor eu ficava. Mas não tive medo. Lancei-me ao mar por inteiro. Senti a força de suas ondas e o sabor de suas águas, literalmente, pois lembro muito bem que engoli uma boa quantidade. Minutos depois, estávamos numa boa. Quem olhava poderia achar que éramos velhos amigos. Já não me sentia pequeno perto dele, bem como, não tomei mais suas águas. Agora, eu já me sentia parte do seu contexto. Eu não era somente mais um banhista, mas sim um descobridor dos sete mares, sendo que essa era a minha primeira descoberta.

Percorri sua extensão em sentido norte e seu oposto. Procurei e encontrei lugares para conversar a sós com meu novo amigo, falar alguns segredos, bem como ouvir, nas conchas, os seus. Brincamos de escrever nossos nomes na areia. Eu escrevia e ele apagava. Assim ficamos boa parte do tempo. Construímos castelos, depois os desmoronamos, era parte da brincadeira. Construir e destruir. Assim, como as ondas vêm e voltam. Assim, como eu, fui, mas tinha que voltar.

17h. Nosso primeiro encontro chegava ao fim. O sol que nasceu às 6h, brilhou o dia todo, proporcionava mais um espetáculo caminhando ao oriente. Anunciava a hora da despedida. Novamente, escrevi meu nome na areia para ser levado pelas ondas e pedi ao meu amigo que o deixasse guardado em seu caderno de anotações. Acredito que assim ele fez, pois onde encontro meu querido amigo Atlântico, sou muito bem recebido em suas areias encharcadas pelas águas salgadas que lá no fundo tem um sabor especial. Seu abraço vem em forma de uma onda, grande ou pequena, mas com certeza aconchegante. Esse é o mar de tantas histórias. Passou a fazer da minha vida, nesse julho de 1989 e até hoje não nos separamos. Somos velhos e grandes amigos.

E, como afirma Caymmi, “o mar quando quebra na praia, é bonito, é bonito”.

Assista o vídeo de Caymmi cantando a música "O mar".

domingo, 19 de julho de 2009

No parque de diversões

O amor aparace...


...em meio à diversão...


...em meio aos brinquedos...


...em meio à sorte...


...e na fantasia de subir e girar
em torno de sí mesmo.


By Roberto Aguiar
Carmopólis/SE
Sexta, 17 de julho de 2009.