sábado, 14 de maio de 2011

Palavra gostosa

Senti a necessidade de escrever um texto. Colocar para fora alguma coisa que me atormentava, sufocava fortemente. Sentei à frente d0 computador, a vontade de escrever não ia embora, da mesma forma que as palavras não vinham. Resolvi vasculhar minha mente em busca de letras soltas, no intuito de formar palavras. Tentativa em vão.

A angústia pela escrita acelerava. Meus dedos precisavam sentir a textura do teclado. Eu precisava libertar o que me aprisionava. Passeando, vi uma palavra ao lado esquerdo do meu cérebro. Fui em sua direção. Quanto mais de pressa eu caminhava, mas distante ela ficava de mim. Em pânico comecei gritar por ela, a chamar: palavra, palavra, palavra. Chamei, chamei chamei...A falta de sua atenção começou a transformar meu pânico em ódio, por impulso gritei:

- Foda-se!

Aquela palavra que deslizava pelo meu cérebro, como patins em pista de gelo, que poderia ser o remédio para a minha aflição, virou-se para mim e olhou, olhou, olhou...disse de uma forma inesperada:

- Vamos juntos!

Fiquei sem ação, fiquei sem palavras para escrever meu texto e sem palavras para responder ao ousado convite daquele fonema. A sorte que meu cérebro ainda funcionava. Pensei, pensei, pensei...olhei firme nos olhos pretos que decoravam o fino rosto daquela palavra. Não resisti. Aceitei o convite. Confesso: foi bom demais.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Maria Bonita: 100 anos da guerreira do cangaço


Entre os dias 23 e 26 de março, aconteceu na cidade de Paulo Afonso/BA, um seminário internacional em comemoração ao centenário da primeira mulher a participar de um grupo de cangaceiros. Apresentações folclóricas, lançamentos de livros, peças, exposições dos pertences usados pelos cangaceiros e fotografias fazem parte da programação que segue durante todo o ano.

A Conferência Internacional das Mulheres realizada na cidade de Copenhague [Dinamarca] em 1910, organizada pela Internacional Socialista, aprova a proposta da socialista alemã Clara Zetkin, de instituição de um dia internacional da mulher. No dia 8 de março do ano seguinte, nasceu Maria Gomes de Oliveira, a Maria Bonita, uma mulher símbolo da coragem e da ousadia.

A guerreira do cangaço rompeu com as regras do seu tempo, uma época marcada por um forte machismo e dominada por um homem rude, violento e metido a ‘valentão’. Aos 18 anos, juntou-se ao bando de Virgulino Ferreira, o Lampião, formando com este, o casal mais famoso de cangaceiros.

Alguns pesquisadores afirmam que Maria Bonita não defendia nenhuma causa especifica e nem tinha inclinações politicas, entrou para o grupo de cangaceiros por amor a Lampião, versão essa defendida por João de Sousa Lima, membro da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço [SBEC], autor dos livros ‘A trajetória de Maria Bonita, a Rainha do Cangaço’ e ‘Moreno e Durvinha, Sangue, Amor e Fuga no Cangaço’.

Mas o próprio Lima reconhece que guerreira ou não, Maria Bonita foi uma mulher valente, quebrou parâmetros, pois o simples fato de ela se juntar a um grupo de homens que viviam à margem da lei bastava para chocar a sociedade de então.

O cangaço, a seca e o latifúndio
Mesmo se Maria Bonita nunca deu um tiro, não matou nenhum soldado da “Volante” e não realizou nenhum assalto, ela foi revolucionária. Preferiu se arriscar no mundo ao lado do homem amado do que viver uma vida de incertezas, conformismo e infelicidades.

A atitude tomada por uma jovem de 18 anos que resolveu seguir um bando de cangaceiros é consequência do meio social em que vivia. Maria Bonita nasceu no sertão, no interior da Bahia, filha de Dona Déa, uma sertaneja como outra qualquer, mãe de 11 filhos. Junto com seu povo vivia o flagelo da seca, a fome do sertanejo e o privilégio dos latifundiários.

Seu amor por Lampião é o amor pela esperança de dias melhores. Como afirma o texto no site oficial sobre o acervo do cangaço, “quando a morte passa a ser sua companhia diária o homem reage. Alguns se entregam ao desespero, à passividade e ao desalento. Outros, de índole mais agressiva, revoltam-se e pegam em armas. Os que não têm nada querem alguma coisa; os que têm pouco querem mais, muito mais, pois o coronel está séculos à sua frente”

Procurar entender quem foi Maria Bonita é buscar compreender o que foi o cangaço. O cangaço, assim como Canudos, foi um movimento que questionava a estrutura vigente baseada no latifúndio, na expulsão do sertanejo de suas terras, da exploração da sua força de trabalho, da fome e da seca que eram submetidos.

O cangaceiro são homens “sem outras alternativas e sabendo que esse estado de coisas continuaria os grupos de rebeldes procuraram em si mesmos os meios para tentar mudanças, instigados pelo analfabetismo, pela fome, pela falta de futuro melhor, pelos anos sucessivos de seca, pelo descaso das autoridades e pela participação, muitas vezes infeliz, da Igreja Católica. O sertão é, por natureza, adverso ao homem que ali tenta viver.” [Site Oficial do Acervo do Cangaço].

Maria Bonita não seguiu Lampião somente por amor, seguiu porque era uma sertaneja que não aceitava mais a situação de seu povo. Podemos questionar o método de luta utilizado pelos cangaceiros, mas não podemos questionar a coragem de quem em meio à seca e a fome manteve-se em pé para lutar.

Guerreira sim!
Brincou de boneca, casinha e ciranda. Namorou, casou, descasou e casou de novo. Com Lampião, seu segundo esposo, teve três filhos – Expedita Ferreira Nunes, a única ainda viva, 78 anos, mora em Aracaju/SE, e os gêmeos Arlindo e Ananias Gomes de Oliveira. Maria ingressou ao cangaço jovem e foi assassinada aos 27 anos ao lado de Lampião e oito cangaceiros, em 28 de julho de 1938, em Poço Redondo/SE. As cabeças foram cortadas e expostas aos sertanejos na escadaria da Prefeitura de Piranhas, em Alagoas.

Os cangaceiros foram dizimados, mas a seca, a fome e o coronelismo continuam no nordeste. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios [PNAD] de setembro de 2009 revelou que 908 mil cearenses viviam em extrema pobreza, isto é, miséria absoluta. Quase 11% da população do Ceará se mantinham com R$58 mensais. De cada 100 pessoas com faixa etária entre zero e 13 anos, 18 viviam em situação de extrema pobreza no Ceará. Vale ressaltar que esses dados colocaram o estado do Ceará em terceiro lugar no rol dos estados em termo de miséria. Em Pernambuco e na Bahia a situação é pior. Esses dois Estados ficaram em primeiro e segundo lugar no rol da miséria, respectivamente.

Que o seminário internacional, realizado em Paulo Afonso/BA no final do mês passado, não tenha sido um evento somente para celebrar o centenário da Maria Bonita, mas para despertar as mentes e os corações dos sertanejos sobre sua realidade. O terreno que germinou Maria Bonita ainda esta lá, esperando novas sementes. Quem sabe o seminário internacional ajude a brotar uma nova Maria. 

domingo, 13 de março de 2011

Passeando com Capote



Assim como existe amor à primeira vista, posso afirmar que há amor à primeira lida. Foi assim que nasceu o meu amor pelo escritor americano Truman Capote. Ao ler seu romance de não ficção A Sangue Frio [1966], um dos maiores livros do século XX, fui fisgado pela sua escrita literária, descritiva e envolvente. Você começa a ler e continua lendo como se estivesse vendo a cena, uma fotografia do cenário é construída a sua frente e você se sente como se estivesse na estória.

A palavra brilhante é pequena demais para classificar Capote. Não sei se encontraria uma palavra com esse poder. Mais uma coisa é certa, conforme consta na apresentação do livro Ensaios [2010], talvez nenhum escritor do século XX tenha sido tão observador e elegante quanto Truman Capote ao retratar seu tempo.

No inicio do mês de fevereiro, viajei para Paulo Afonso/Bahia, uma linda cidade cravada no meio do sertão. Foram 5h de viagem. Aproveitei o tempo para ler Ensaios. A cada ensaio lido, mas fascinado ficava com Capote. Os primeiros ensaios do livro são sobres viagens por ele realizadas. A forma como descreve cada lugar, objetos e pessoas, vai passando um filme em nossa cabeça. Começamos ver as cenas como se estivéssemos em frente à TV assistindo uma novela, com personagens que falam à sua frente.

A minha amizade com Capote vem amadurecendo. Não posso afirmar que somos amigos íntimos, mas posso dizer que já somos bons amigos. O que me fascina em Capote não é o conteúdo de sua escrita, não que tenho desprezo por ele, mas a forma como descreve seu conteúdo. A sua escrita elegante, às vezes irônica às vezes triste, sem pedantismo, é o que nos une.

Em Paulo Afonso visitei lindos lugares, tomei banho nas cachoeiras do Velho Chico, conheci novas pessoas. No intervalo de descanso pegava meu livro e começava a viajar junto com Capote em suas viagens descritas nos ensaios. Eu tinha agendado um passeio de catamarã pelas águas azuis do Rio São Francisco. Em meio à leitura de um dos ensaios, resolvi levar Capote comigo para o passeio. Achava que tinha por obrigação leva-lo comigo, pois em seus ensaios, com sua escrita, já tinha viajado com ele para vários países e cidades americanas. Era a minha vez de retribuir. Assim fiz.

Tenho certeza que Truman Capote faria um belíssimo ensaio sobre o nosso passeio. Com suas palavras o Velho Chico, suas águas límpidas e seus grandes canyons, ganhariam um novo significado. Como Capote não está vivo cabe a mim esse desafio. Irei escrever, ainda não sei quando. As ideias ainda fermentam em minha mente.

quarta-feira, 9 de março de 2011

Pierrô

Na terça-feira de carnaval, estava atravessando umas das pontes do Recife Antigo, vi que tinha uma pessoa sentada em um banco na beira do cais, com a cabeça baixa, triste. Olhei. A pessoa olhou para mim. Continuou sentado. Eu o reconheci. Era o Pierrô.

Ao chegar no Marco Zero entendi a tristeza do palhaço. A Colombina rodopiava, abraçada, cheia de felicidades com o Arlequim.

sábado, 5 de março de 2011

Colombina

Ontem na primeira noite de carnaval em Recife, olhava para todas as pessoas à sua procura. Em todos os rostos eu só via você, mas ao mesmo tempo, nos rostos carnavalescos, não via suas palavras, sua escrita, sua música. Logo despertava e saia como Pierrô em busca da sua Colombina.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Reserva III

Apito, juiz, grama, bola.
Você, fora!

Reserva II

Chuteira limpa. Camisa enxuta. Linha oposta.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Reserva

Pés em repouso.
Sentado, observando, querendo.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Telefone mudo

Cheguei em casa às 21h. Tomei banho, deitei no sofá, esperei o telefone tocar. Dormi sem ouvir sua voz.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

A escrita e a angústia

A sua escrita existencialista revela uma pessoa que busca explicações sobre quem e o que somos, o que fazemos, para onde vamos, o que e quem nos move. Perguntas pequenas que exigem grandes respostas. Respostas nada impossíveis de serem alcançadas por um jovem que se auto-define do tamanho da soma de tudo aquilo que absorve.

Nunca ouvi sua voz. Mas li e senti suas palavras carregadas de um brilho semelhante ao alargador prateado enfiado em sua pequena orelha. As palavras são sua voz, mas sem som. Isso não importa, apesar de ter uma paixão pelas palavras faladas, as suas permitem ouvir uma voz, pode até não ser sua voz, pode ser a voz da palavra.

Blog, diário e livros. Três coisas importantes na vida de um jovem estudante de Letras, da Universidade Federal de Alagoas [UFAL], que trabalha e anda em ônibus lotado como eu. Apesar de sermos separados geograficamente pelo Rio São Francisco, a história construiu uma ponte que os une. Nesse caso, o amor pela palavra – escrita, falada, cantada. Eu cursando Comunicação Social/Jornalismo na Universidade Federal de Sergipe [UFS], ele Letras na UFAL, fomos entrelaçados pela busca de palavras a serem lidas, consumidas, saboreadas, interpretadas e reescritas.

Fomos presos em celas diferentes, no presídio chamado palavras. O alagoano tem Clarice Lispector e Alice Ruiz como parceiras de cela. Machado de Assis e Truman Capote são os meus. Isso não quer dizer que não tenhamos outros amigos, nada disso. Mas a gente sempre tem aquele amigo com quem dividimos nossos segredos mais íntimos. Vira e mexe brincamos de trocar de amigos, mas só por alguns dias. No dia livre, onde todos os presidiários concentram-se no enorme pátio de cores azuis, rodeado de bancos de cimento coberto com uma tinta amarela, vira uma grande feira literária. É um troca-troca de livros, rodas de conversas, debates e mesas de discussão. Um dia de festa que inicia ás 8h e termina ao pôr do sol. Ao voltar para cela, sempre vamos de mãos dadas com os novos amigos que adquirimos durante a feira e com os olhos cheios de lágrimas ao ver velhos amigos irem embora. Uns para sempre, outros por apenas alguns dias, até a próxima feira que rola todas as sextas-feiras.

Como eu e o alagoano estamos em selas vizinhas, nossas conversas e debates são permanentes. Tá aí um vizinho que quero para sempre ao meu lado, apesar de seu existencialismo “meio doentio” que reflete em seu escrita e em sua angústia. Nada que uma dose de Rubem Braga não contorne a situação.